Workaholic: quando o trabalho ocupa mais espaço do que merece

Indagação provocante: e se o “meu problema é que eu gosto de trabalhar” for, na verdade, um jeito elegante de não olhar pra uma compulsão que está comendo sua saúde e seus vínculos… em silêncio?

Resposta direta: workaholism (ou “work addiction”) não é simplesmente “trabalhar muito”. Em boa parte da literatura, ele é descrito como trabalhar excessivamente + de forma compulsiva, movido por um impulso interno difícil de desligar — mesmo quando isso custa sono, saúde, relacionamentos e prazer. (isonderhouden.nl)
E aqui vale um esclarecimento importante: apesar de ser estudado como possível adicção comportamental, não é um diagnóstico formal no DSM-5 nem no ICD-11 atualmente (o que não impede sofrimento real — apenas indica que os sistemas classificatórios ainda não o reconhecem como transtorno específico). (PMC)

Atenção: este texto é informativo e não substitui avaliação médica/psicológica. Se você está em exaustão intensa, com sintomas importantes de ansiedade/depressão, abuso de substâncias, ou ideação de autolesão, procure ajuda profissional.


A história real por trás do “eu tô sempre ocupado(a)… e mesmo assim nunca termina”

Você até descansa fisicamente às vezes.
No entanto, por dentro, você não desliga.

Você vai jantar e pensa em pendências.
Você está com a família e sente culpa por não estar produzindo.
Você conclui uma entrega e, em vez de alívio, só aparece outra urgência.

Então, sem perceber, o trabalho deixa de ser uma parte da vida e vira o centro de gravidade: tudo orbita em torno dele — e você também.


1) Primeiro: trabalhar muito não é o problema — o problema é não conseguir parar

Para dar conforto cognitivo, vamos separar com clareza:

  • Trabalho intenso: você trabalha muito por uma fase, mas consegue desligar, recuperar e voltar ao eixo.
  • Workaholism: você trabalha muito e, além disso, sente um impulso compulsivo que te puxa de volta — mesmo quando não faz sentido. (isonderhouden.nl)

Em seguida, entra a nuance que evita confusão: existe gente que trabalha muito por engajamento (energia, propósito, prazer) — e isso é diferente de trabalhar muito por compulsão (ansiedade, medo, controle). Estudos sobre “heavy work investment” mostram essa distinção entre work engagement (mais saudável) e workaholism (mais arriscado). (wilmarschaufeli.nl)


2) Depois: por que o trabalho vira vício “aceitável”?

Porque ele é um vício que costuma ser recompensado socialmente.

Você recebe elogio por estar sempre disponível.
Você ganha status por “aguentar tudo”.
Você sente alívio imediato ao produzir.

Só que, aos poucos, o cérebro aprende uma associação perigosa:

“Se eu trabalho, eu controlo a ansiedade. Se eu paro, eu sinto.”

E, quando isso vira padrão, o trabalho passa a ser anestésico.


3) Agora, os sinais práticos: quando o trabalho ocupou espaço demais

Em vez de “rotular”, observe estes sinais como mapa:

  1. Você trabalha para aliviar culpa/ansiedade, não por necessidade real.
  2. Você promete parar, mas “só mais uma coisa” sempre vence.
  3. Você fica irritado(a) quando algo te impede de trabalhar.
  4. Você leva trabalho para horários que eram de vida (sono, família, descanso).
  5. Você sente que seu valor pessoal depende do que entrega.
  6. Você perde hobbies, presença e até alegria — mas continua acelerando.
  7. Seu corpo dá sinais (sono ruim, tensão, cansaço) e você “empurra mesmo assim”.

Essas características aparecem com frequência em descrições e medidas de workaholism/work addiction, como escalas baseadas em componentes de adicção (por exemplo, a Bergen Work Addiction Scale). (Wiley Online Library)


4) Além disso, o custo costuma aparecer onde você menos quer: sono, saúde e relacionamentos

Aqui a transição é importante: não é só “estar ocupado(a)” — é o efeito em cadeia.

  • Sono: estudos encontram associação entre workaholism e problemas de sono, e há trabalhos sugerindo que o sono pode mediar parte do impacto em risco cardiovascular em certos grupos ocupacionais. (docusalut.com)
  • Relações: pesquisas diferenciam workaholism (mais conflito e interferência vida-trabalho) de engajamento (mais positivo), destacando efeitos sobre interferência e bem-estar. (PMC)

Portanto, o problema não é “amar o que faz”. O problema é quando o trabalho vira substituto de vida.


5) Então, por que férias não resolvem (ou resolvem só por alguns dias)?

Porque o workaholism não é falta de descanso. É um padrão.

Você muda o cenário… mas leva junto:

  • a crença “eu só valho quando produzo”,
  • o medo de perder controle,
  • o hábito de estar sempre “ligado”.

Consequentemente, você volta e o piloto automático reaparece.


6) O diagnóstico honesto: você está em engajamento… ou em compulsão?

Use este comparativo rápido:

Engajamento (mais saudável):

  • você trabalha com energia e propósito;
  • consegue parar;
  • recupera sem culpa;
  • o trabalho soma à identidade.

Workaholism (mais arriscado):

  • você trabalha por impulso/ansiedade;
  • parar dá abstinência (irritação, inquietação);
  • descanso vem com culpa;
  • o trabalho engole o resto. (wilmarschaufeli.nl)

7) Por fim: como reduzir o espaço do trabalho sem perder ambição (7 passos)

Aqui vai um caminho que não depende de “virar outra pessoa”, e sim de reorganizar o sistema.

Passo 1 — Nomeie o padrão (sem se atacar)

Em vez de “eu sou assim”, diga:

“Quando eu fico ansioso(a), eu corro pro trabalho.”

Assim, você troca culpa por clareza.

Passo 2 — Crie um “horário de desligar” com ritual curto

Por exemplo: 10 minutos para:

  • listar pendências,
  • escolher 1 prioridade de amanhã,
  • fechar tudo.

Isso reduz a tendência de ruminar e “levar o trabalho na cabeça”.

Passo 3 — Troque disponibilidade por acordos

Em vez de “me chama qualquer hora”, use:

  • “respondo às 12h e às 18h”,
  • “urgências por ligação”.

Em seguida, sustente o limite por repetição, não por debate.

Passo 4 — Proteja o sono como ativo (não como luxo)

Se o workaholism está encostando no sono, esse é um alarme importante, porque a literatura liga workaholism a problemas de sono em diferentes amostras. (J-STAGE)

Passo 5 — Reponha vida fora do trabalho (no calendário)

Se ficar “quando der”, não vai dar.
Marque: caminhada, amigo, hobby, silêncio.

Passo 6 — Trabalhe a crença central

Perguntas úteis:

  • “o que eu temo que aconteça se eu desacelerar?”
  • “de quem eu tento provar algo?”
  • “quem eu sou quando não estou produzindo?”

Se isso bater forte, terapia pode ser especialmente eficaz para reorganizar o motor interno (culpa, controle, medo, autoestima).

Passo 7 — Se há dano real, busque avaliação profissional

Se você está com sintomas persistentes (insônia, ansiedade intensa, irritabilidade, uso de estimulantes para aguentar), procurar ajuda é autocuidado, não fraqueza.


Fechamento mais incisivo

Trabalhar muito pode ser fase.
Mas trabalhar sem conseguir parar vira prisão.

E a pergunta que resolve tudo é:

“O trabalho está servindo à minha vida… ou a minha vida está servindo ao trabalho?”


Referências (base científica e institucional)

  • Definição frequente na literatura: workaholism como trabalhar excessivamente e compulsivamente (Schaufeli, Taris & Bakker). (isonderhouden.nl)
  • Distinção entre workaholism e work engagement e efeitos em bem-estar/performance (longitudinal). (wilmarschaufeli.nl)
  • Visão geral do campo e instrumentos; Bergen Work Addiction Scale (BWAS). (PMC)
  • Status classificatório: work addiction não incluído no DSM-5 / ICD-11 (revisão sistemática recente). (PMC)
  • Workaholism e interferência vida–trabalho vs engajamento. (PMC)
  • Associação com sono e potenciais impactos em saúde (incluindo risco cardiovascular via sono em alguns estudos). (ResearchGate)

Leituras complementares (links confiáveis)

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4117275/
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1467-9450.2012.00947.x
https://www.wilmarschaufeli.nl/publications/Schaufeli/433.pdf
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6266527/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11149883/
https://www.nature.com/articles/s41598-023-47515-9
https://www.wilmarschaufeli.nl/publications/Schaufeli/495.pdf
https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases

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