O que está por trás do sucesso dos livros de colorir? (neurociência, ansiedade moderna e o “prazer de controlar uma coisa pequena”)

Resposta direta: livros de colorir fazem sucesso porque entregam, de um jeito simples, três recompensas cerebrais ao mesmo tempo:

  1. reduzem ansiedade/ruminação ao prender a atenção numa tarefa previsível e de baixo risco,
  2. facilitam um estado tipo “flow” (imersão prazerosa),
  3. dão sensação rápida de progresso e controle (“terminei uma página”). Estudos e revisões mostram efeitos possíveis em ansiedade/estado de humor em várias populações, embora os resultados não sejam iguais em todos os trabalhos (há achados mistos).

E tem um detalhe cultural que fecha o circuito: o boom de 2014–2016 (inclusive no Brasil) mostrou que isso virou também fenômeno editorial, impulsionado por best-sellers como os de Johanna Basford e pela ideia de “desintoxicar do digital” com uma atividade tátil, barata e compartilhável.

Agora vamos por camadas — com histórias reais do cotidiano, porque é aí que você entende por que isso “pega”.

Dias quentes (Spring Summer) – Livro de colorir oficial Bobbie Goods

Por que tanta gente “vicia” em colorir? (uma cena muito comum)

A pessoa chega em casa com a cabeça barulhenta. Não está triste, nem feliz — está cheia. Abre o celular, mas piora. Abre uma série, mas não relaxa. Aí pega um livro de colorir.

Em 3 minutos, algo muda: o cérebro sai do modo “tempestade de pensamentos” e entra no modo “uma coisa de cada vez”.

O que está acontecendo não é magia. É atenção guiada.

E isso nos leva à pergunta certa: livro de colorir é uma forma de mindfulness?


Livros de colorir são “mindfulness”? Depende de como você usa

Há pesquisa discutindo exatamente isso: colorir pode estar associado a uma atenção mais presente, mas não é automaticamente mindfulness — intenção e forma de fazer importam. Em estudos, às vezes colorir não se mostrou superior a desenhar livremente para reduzir ansiedade, e em outros há diferenças (mandalas/estruturas podem ajudar mais em alguns contextos).

Na prática: funciona melhor quando você usa como “âncora”:

  • perceber cores e movimento da mão,
  • voltar para a página quando a mente foge,
  • sem transformar em prova de perfeição.

E aqui vem o segundo motor do sucesso:

por que isso é tão gostoso, mesmo sendo simples?


Cozy Time – Para Colorir Capa comum – 27 dezembro 2024

O cérebro ama “flow”: o prazer de ficar inteiro numa coisa só

Muita gente descreve colorir como “eu desapareci por um tempo”. Isso parece com flow: foco profundo, autoconsciência mais baixa, tempo passando diferente.

Revisões sobre a neurociência do flow apontam envolvimento de circuitos de recompensa e motivação (incluindo sistemas ricos em dopamina) e mudanças no equilíbrio entre controle e imersão.

Por que livro de colorir facilita flow?
Porque entrega o ponto exato de desafio:

  • não é difícil demais (não te humilha),
  • não é fácil demais (não te entedia),
  • e tem feedback visual imediato (“tá ficando bonito”).

E aí aparece um terceiro motor, muito humano:

Por que isso parece “terapia barata” pra tanta gente?


Não é terapia, mas pode baixar a ansiedade (com ressalvas honestas)

Existem estudos experimentais e clínicos sugerindo redução de ansiedade/estados negativos após sessões de colorir (inclusive em contextos específicos), embora os resultados variem e não sejam uma “cura” universal.

Exemplos do que a literatura relata:

  • Colorir por 20–30 minutos pode reduzir ansiedade/afeto negativo em alguns estudos, com nuances sobre “livre escolha” vs. atividade guiada.
  • Em ensaio com pessoas com transtorno de ansiedade generalizada, “coloring therapy” combinada ao tratamento convencional foi investigada com resultados favoráveis em medidas emocionais (no contexto do estudo).
  • Trabalhos recentes também investigam mandalas/formatos estruturados e mudanças em ansiedade/estresse em diferentes grupos.

O ponto importante: colorir é um recurso de regulação (um jeito de baixar o “volume mental”), não substituto de cuidado profissional quando há sofrimento persistente.

E isso nos leva ao motivo mais “social” do sucesso:

por que isso explodiu justamente na era do excesso digital?


“Detox do digital” que não exige disciplina heroica

Colorir é:

  • analógico,
  • tátil,
  • barato,
  • sem login, sem algoritmo, sem comparação infinita.

E isso combina com um momento cultural em que as pessoas procuram atividades sem tela. A própria onda editorial dos livros de colorir foi tratada como fenômeno cultural e de mercado, com dados de vendas e explosão de títulos em 2015 (inclusive com destaque no Brasil).

Agora o último elo do circuito (o que fecha a explicação):

por que dá uma sensação tão forte de “controle” e “progresso”?


A psicologia do “controle pequeno” em tempos caóticos

Uma página colorida entrega:

  • começo-meio-fim,
  • resultado visível,
  • autonomia (“eu escolho as cores”),
  • e uma microvitória concreta.

Para um cérebro cansado de tarefas sem fim, isso é ouro.

Não é sobre voltar a ser criança. É sobre devolver ao cérebro um tipo de experiência que a vida moderna tirou: concluir algo bonito em 15–30 minutos.


Como usar livros de colorir do jeito que mais ajuda o cérebro

1) Qual o melhor tempo?

Teste 10 a 20 minutos quando você quer reduzir agitação; 30 minutos quando quer relaxar mais (sem virar “maratona”). Estudos variam, mas sessões curtas são comuns em pesquisas.

2) Melhor com música ou silêncio?

Se música ajuda a manter atenção, ok. Só evite conteúdo que te acelera (notícias/scroll).

3) “Precisa ser mandala?”

Não necessariamente. Algumas pesquisas comparam mandalas, formas estruturadas e desenho livre com resultados mistos — escolha o que te dá mais presença e menos cobrança.


CTA de engajamento

Comenta com um número (rapidinho):

  1. Eu uso pra relaxar/ansiedade
  2. Eu uso pra focar
  3. Eu uso como detox de tela
  4. Eu nunca tentei, mas fiquei curioso(a)

Eu te sugiro um “ritual de 15 minutos” (bem simples) para o seu objetivo.


Aviso importante

Este texto é informativo. Se ansiedade/depressão/insônia estiverem fortes e persistentes, vale buscar avaliação profissional. Colorir pode ajudar como suporte, não como substituto de tratamento.


Referências (base científica e contextual)

  • Mantzios, M. & Giannou, K. When did coloring books become mindful? (Frontiers in Psychology, 2018).
  • Curry, N. A. & Kasser, T. Can coloring mandalas reduce anxiety? (2005, estudo clássico).
  • Kaimal, G. et al. Open studio vs. coloring: efeitos em ansiedade/humor (2017).
  • Ashlock, L. E. et al. Structured coloring activities and anxiety (2019).
  • Samuel, B. et al. Coloring therapy em ansiedade generalizada (2022).
  • Dias Alves, M. et al. Coloring complex shapes e ansiedade (Frontiers in Psychology, 2024).
  • Gold, J. & Ciorciari, J. Neuroscience of flow states (2020, revisão).
  • Contexto editorial do fenômeno (2015–2016): Publishing Perspectives / Publishers Weekly / TIME / The Guardian.

Leituras complementares (sites confiáveis)

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5797627/
https://files.eric.ed.gov/fulltext/EJ688443.pdf
https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2024.1336202/full
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9773305/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7551835/
The Coloring Book Phenomenon Takes Over Brazil
https://www.publishersweekly.com/pw/by-topic/new-titles/adult-announcements/article/68688-the-coloring-craze-adult-coloring-books-2015.html https://time.com/4246079/coloring-books-for-adults/ https://www.theguardian.com/books/2015/aug/27/secret-garden-colouring-in-book-sells-3m-copies-in-china

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