📉 O que está por trás do aumento dos casos de depressão?

Indagação provocante: e se o “aumento da depressão” não fosse uma única causa — e sim várias pressões ao mesmo tempo, empilhadas em cima de um cérebro já cansado?

Resposta direta: por trás desse aumento costuma haver uma combinação de fatores reais e sociais. No mundo todo, a pandemia foi um grande acelerador: no primeiro ano, estimou-se alta importante em ansiedade/depressão, com impacto maior em jovens e mulheres. (Organização Mundial da Saúde) Some a isso estresse econômico (insegurança financeira, dívidas, instabilidade), que aparece de forma consistente associado a mais sintomas depressivos. (PMC)

Outro motor é solidão/isolamento (menos rede, menos pertencimento), que se relaciona de forma bidirecional com sintomas depressivos. (PMC) Sono bagunçado também pesa: dormir pouco e mal aumenta o risco e piora a recuperação. (www.elsevier.com) Em adolescentes, há sinais de sofrimento emocional alto em levantamentos populacionais, o que ajuda a explicar a percepção de crescimento do problema. (CDC) E, por fim, parte do “aumento” pode parecer maior porque há mais consciência, rastreio e procura por ajuda — o que é bom, porque traz gente para o cuidado mais cedo.

Talvez você tenha notado isso ao seu redor:

  • mais gente dizendo “tô no limite” (e não é drama);
  • mais afastamentos no trabalho por saúde mental;
  • mais adolescentes e adultos jovens exaustos, sem energia, sem prazer;
  • mais diagnósticos — e também mais gente finalmente pedindo ajuda.

A pergunta é inevitável:

por que parece que a depressão está aumentando tanto?

A resposta honesta é: não existe uma causa única.
O que existe é um combo de fatores — biológicos, psicológicos e sociais — que se somam, se retroalimentam e, em alguns grupos, explodem de uma vez. A própria OMS descreve a depressão como condição multifatorial, influenciada por determinantes individuais e sociais. (Organização Mundial da Saúde)

Vamos entender:

  • o que pode ser aumento real de sofrimento,
  • o que pode ser mais diagnóstico e mais relato,
  • e quais “forças invisíveis” do nosso tempo estão empurrando a saúde mental para baixo.

1) Primeiro: “aumentou mesmo” ou “apareceu mais”?

Muitas vezes acontecem duas coisas ao mesmo tempo:

  1. Mais gente adoecendo (aumento real)
    Por mudanças no modo de vida, crises, isolamento, estresse crônico, insegurança, sono pior, etc.
  2. Mais gente sendo identificada (aumento aparente)
    Porque hoje há mais informação, menos vergonha em falar, mais triagem em serviços e mais termos para descrever sofrimento.

Exemplo do impacto real recente: a OMS publicou um alerta de que, no primeiro ano da pandemia, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em torno de 25%. (Organização Mundial da Saúde)

E do lado do “apareceu mais”: nos EUA, dados do CDC/NCHS mostram aumento expressivo de prevalência ao longo de uma década, com recorte forte em adolescentes e jovens, e também trazem uma medida objetiva de prevalência recente (depressão nas últimas 2 semanas) em 2021–2023. (CDC)


2) O “pós-pandemia” não foi só sobre vírus (foi sobre vida)

A pandemia não criou tudo do zero — mas piorou e acelerou muita coisa:

  • luto, medo e trauma coletivo;
  • interrupções de escola, trabalho e rotina;
  • perda de renda e instabilidade;
  • redução de rede de apoio (as pessoas “sumiram”);
  • serviços de saúde mental sobrecarregados.

A própria OMS destacou o efeito da pandemia tanto no aumento de sintomas quanto na pressão sobre os serviços. (Organização Mundial da Saúde)


3) Solidão, isolamento e falta de vínculo: o “vazamento silencioso” de saúde mental

Você pode estar rodeado de gente e, ainda assim, se sentir sozinho.

Nos últimos anos, relatórios de saúde pública colocaram conexão social como fator central:

  • solidão e isolamento se associam a pior saúde mental;
  • há relação com depressão e ansiedade;
  • e isso afeta jovens e adultos.

A OMS vem reforçando que a conexão social protege a saúde e que a solidão aumenta risco de problemas de saúde mental, incluindo depressão. (Organização Mundial da Saúde)

Tradução prática: o cérebro humano não foi feito para viver sem pertencimento.


4) Vida digital intensa: mais estímulo, mais comparação, mais vulnerabilidade (especialmente em adolescentes)

Não é “a internet é má”. A questão é como ela é usada e quanto ela ocupa da vida.

Nos últimos anos, órgãos de saúde e pesquisas passaram a falar em:

  • uso problemático de redes sociais;
  • sono e atenção prejudicados;
  • aumento de comparação social e sensação de inadequação;
  • exposição constante a conflitos, catástrofes e “alertas”.

A OMS/Europa reportou aumento de uso problemático de redes sociais entre adolescentes e preocupação com efeitos na saúde mental. (Organização Mundial da Saúde)
E o advisory do U.S. Surgeon General reúne evidências e recomendações sobre riscos e benefícios, com alerta para vulnerabilidades em crianças e adolescentes. (HHS)

O ponto não é “proibir tudo”. É ter higiene digital para o cérebro conseguir respirar.


5) Sono pior: quando o cérebro não “fecha a conta” do dia

Sono não é luxo. É manutenção.

Quando o sono cai (qualidade e duração), aumentam:

  • irritabilidade e reatividade;
  • dificuldade de concentração;
  • ruminação (“pensamento em looping”);
  • vulnerabilidade a ansiedade, depressão e burnout.

Há literatura recente discutindo relação entre privação/qualidade do sono e sintomas de depressão e ansiedade. (PMC)


6) Estresse crônico, trabalho e pressão econômica: viver “no modo ameaça” cansa

Muita gente não vive um estresse pontual.
Vive um estresse contínuo, que drena energia, esperança e senso de controle.

Dois motores fortes:

6.1. Estresse psicossocial no trabalho

Revisões acadêmicas discutem associação entre estressores psicossociais no trabalho e sintomas depressivos/depressão. (SSPH+)

6.2. Insegurança econômica e desigualdade

Baixa condição socioeconômica aparece associada a maior risco de depressão em meta-análises; e estudos longitudinais discutem como insegurança econômica se relaciona com sintomas depressivos via estresse. (PubMed)

No Brasil, para dar um exemplo concreto do peso disso no cotidiano: notícia da Agência Brasil apontou aumento importante de afastamentos por transtornos mentais, com episódios depressivos entre os principais motivos em 2024. (Agência Brasil)


7) “Mais diagnóstico” também pode ser um sinal bom (às vezes)

Parece contraditório, mas é real:

  • quando as pessoas entendem sintomas,
  • quando há mais triagem em atenção primária,
  • quando há menos estigma,

… mais gente busca ajuda e recebe diagnóstico — e isso pode salvar vidas.

O “aumento” pode ser, em parte, o sofrimento que sempre existiu aparecendo na superfície.


8) Clima, desastres e sensação de futuro “instável”

Para algumas pessoas, a ansiedade climática é dominante; para outras, são as consequências concretas (enchentes, calor extremo, perdas).

A OMS tem um policy brief sobre clima e saúde mental, e há evidências de que eventos climáticos extremos podem impactar sofrimento psicológico. (Organização Mundial da Saúde)

Aqui vale nuance: nem toda preocupação climática vira depressão (há estudos com resultados mistos), mas pode aumentar carga emocional e sensação de insegurança — e isso pesa no conjunto. (PubMed)


9) Resumo honesto: por que os casos parecem estar aumentando?

Porque várias camadas se somaram:

Não é fraqueza individual. É, muitas vezes, um sistema inteiro apertando o humano até ele falhar.


10) O que dá para fazer na vida real (sem promessa mágica)

Alguns “pilares” que costumam ajudar (como complemento, não como substituto de tratamento):

  • sono como prioridade (regularidade > perfeição);
  • movimento (mesmo leve, com consistência);
  • vínculo (uma conversa sincera por semana já muda muito);
  • higiene digital (reduzir rolagem infinita, especialmente à noite);
  • pedir ajuda cedo (antes de virar colapso).

E, se você perceber sinais persistentes por semanas (tristeza profunda, perda de interesse, culpa intensa, alteração grande de sono/apetite, desesperança), vale procurar avaliação profissional — a OMS reforça que há tratamentos eficazes. (Organização Mundial da Saúde)


Aviso importante

Este texto é informativo.

  • Não substitui avaliação com psicólogo(a) ou psiquiatra.
  • Se você estiver em risco imediato ou com pensamentos de morte, procure ajuda agora:
    • CVV 188 (Brasil) — atendimento 24h
    • SAMU 192 / emergência local

Referências (base científica)

  • World Health Organization (OMS). Depressive disorder (depression) — Fact sheet. Atualizado em 29 ago 2025. (Organização Mundial da Saúde)
  • World Health Organization (OMS). COVID-19 pandemic triggers 25% increase in prevalence of anxiety and depression worldwide. 2 mar 2022. (Organização Mundial da Saúde)
  • CDC/NCHS. Depression Prevalence in Adolescents and Adults (NHANES, 2021–2023). 2025. (CDC)
  • WHO Europe. Teens, screens and mental health. 25 set 2024. (Organização Mundial da Saúde)
  • U.S. Surgeon General / HHS. Social Media and Youth Mental Health — Advisory. 2023. (HHS)
  • WHO / U.S. Surgeon General. Loneliness and social connection advisory (impactos em saúde mental). 2023. (HHS)
  • du Prel, J. B. et al. The Relationship Between Work-Related Stress and Depression (scoping review). 2024. (SSPH+)
  • Jespersen, A. et al. Socioeconomic status and depression — systematic review/meta-analysis. (PubMed). (PubMed)
  • Agência Brasil. Afastamentos por transtornos mentais dobram em dez anos… 11 mar 2025. (Agência Brasil)
  • WHO. Mental health and Climate Change — Policy brief. 2022. (Organização Mundial da Saúde)

Leituras complementares (para o leitor leigo)

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