O problema não é a emoção — é o medo de senti-la
Indagação provocante: e se o que está te machucando não for a tristeza, a raiva ou a ansiedade… e sim o esforço constante de não sentir nada disso?
Resposta direta: emoções difíceis não são, por si só, o inimigo. O sofrimento costuma crescer quando a gente entra numa guerra contra a própria experiência interna — tentando evitar, controlar ou escapar de pensamentos, sensações e sentimentos. Isso tem nome na psicologia: evitação experiencial (experiential avoidance), definida como esforços deliberados para evitar/escapar de experiências internas desagradáveis, mesmo quando isso custa caro e afasta você do que importa. (PMC)
Caution Action: este texto é informativo e não substitui psicoterapia/avaliação médica.
A história real por trás do “eu só queria parar de sentir”
Fulano(a) não queria “ser forte”.
Fulano(a) queria alívio.
Então começou o plano silencioso:
- distração quando vinha a angústia,
- trabalho quando vinha o vazio,
- tela quando vinha a solidão,
- controle quando vinha o medo.
E por um tempo funcionou.
Até que o corpo começou a cobrar:
- irritação por nada,
- cansaço que não melhora,
- sensação de estar “desconectado(a)” de si,
- e um pânico discreto: “se eu parar, eu desmorono”.
A verdade dura é esta:
Você pode até conseguir não sentir por alguns minutos.
Mas não consegue não sentir para sempre — só consegue pagar juros.
1) Evitar emoção parece solução — até virar prisão
A evitação experiencial é descrita como uma tentativa intencional de escapar de experiências internas aversivas (emoções, pensamentos, memórias, sensações corporais). (PMC)
O problema é que ela costuma virar um padrão “transdiagnóstico”: aparece associada a ansiedade, depressão, PTSD, OCD e outros quadros, em revisões e meta-análises. (ScienceDirect)
Em português simples:
- você evita sentir para não sofrer,
- mas a evitação vira a coisa que mais te faz sofrer.
Porque ela te obriga a viver em vigilância constante:
“não posso sentir isso”
“não posso pensar aquilo”
“não posso deixar vir”
E isso desgasta.
2) Suprimir emoção tem custo: o corpo segura… e a mente paga
A pesquisa sobre supressão emocional (tentar inibir expressão/experiência) mostra custos cognitivos importantes. Um estudo clássico encontrou que suprimir emoções pode prejudicar memória incidental e impor custo mental. (SAGE Journals)
Outros trabalhos discutem efeitos paradoxais/rebote e consequências de tentativas de suprimir emoção. (PMC)
Não é “nunca suprimir”. Às vezes você precisa se conter.
O risco é fazer disso o seu modo padrão de existir.
3) Regular não é apagar: é escolher estratégia no momento certo
O modelo de processo de regulação emocional de Gross propõe que emoções se desenvolvem em etapas e podem ser moduladas em diferentes pontos — antes e depois da emoção “pegar fogo”. (elaborer.org)
Tradução prática:
- tem hora de evitar gatilho (antecedente),
- tem hora de reavaliar (reappraisal),
- tem hora de aceitar e atravessar,
- e tem hora de só não agir no impulso.
O problema não é ter emoção.
É não ter repertório para lidar com ela sem entrar em guerra.
4) O medo de sentir é, muitas vezes, medo do que você faria sentindo
Tem gente que não teme a tristeza.
Teme “ficar fraco”.
Não teme a raiva.
Teme “perder o controle”.
Não teme a ansiedade.
Teme “passar vergonha”, “desmoronar”, “não voltar”.
A emoção vira ameaça porque você confunde sentir com agir.
Mas sentir não é agir.
Emoção é sinal. Ação é escolha.
5) O método “ACEITAR SEM SE ENTREGAR” (5 passos de 2 minutos)
Isso não é fórmula mágica. É treino de autonomia emocional.
1) Nomeie (10s)
Diga mentalmente:
“Estou sentindo ansiedade.”
ou “isso é tristeza.”
Nomear ajuda a criar um pequeno espaço entre você e o estado.
2) Permita o corpo (30s)
Sem dramatizar, localize:
peito, garganta, estômago, mãos.
Descreva: pressão, calor, aperto, agitação.
Você está ensinando o cérebro:
“isso é desconfortável, mas não é perigo imediato”.
3) Respire como quem baixa o volume (40s)
Inspire normal.
Expire um pouco mais longo.
Não é para “curar”, é para reduzir a urgência.
4) Pergunte o que a emoção está tentando proteger (20s)
Ansiedade protege do incerto.
Raiva protege limite.
Tristeza protege o que foi perdido.
Nem sempre ela está certa — mas quase sempre está tentando ajudar.
5) Escolha uma microação compatível com seus valores (20s)
Não a ação perfeita. A microação possível:
- mandar uma mensagem honesta,
- tomar água e sair da tela,
- adiar a resposta impulsiva,
- pedir um tempo,
- fazer uma pausa real.
Você não “resolveu” a emoção.
Você recuperou autoria.
6) Quando buscar ajuda faz sentido
Procure apoio profissional se:
- você se sente frequentemente dominado(a) por emoções,
- evita situações essenciais para a vida,
- há prejuízo importante em sono, trabalho e relações,
- ou há sofrimento persistente por semanas.
Evitação experiencial é um alvo comum em terapias baseadas em evidências (ex.: ACT), e não precisa virar “personalidade”: pode virar habilidade treinável. (Grupo ACT Argentina)
Fechamento mais incisivo
A emoção não é o seu inimigo.
O inimigo é viver como se sentir fosse perigoso.
Porque, quando você passa anos tentando não sentir,
você não fica “blindado(a)”.
Você fica encolhido(a).
E a vida fica pequena:
não por falta de tempo — por falta de permissão interna.
Você não precisa amar suas emoções.
Você só precisa parar de tratá-las como ameaça.
Aviso importante
Este conteúdo é informativo e não substitui psicoterapia ou avaliação médica.
Se houver risco de autoagressão, desespero intenso ou prejuízo grave, procure ajuda imediatamente (Brasil: CVV 188; emergência 192).
Referências (base científica e institucional)
- Evitação experiencial: definição e contexto em ACT (PMC). (PMC)
- Definição clássica de evitação experiencial e implicações (PDF). (psicothema.com)
- Meta-análise: evitação experiencial em depressão, ansiedade e transtornos relacionados. (ScienceDirect)
- Regulação emocional — modelo de processo (Gross, 1998; 2015). (elaborer.org)
- Supressão emocional e custos cognitivos/memória (Richards & Gross, 1999). (SAGE Journals)
- Supressão e efeitos paradoxais/rebote (PMC). (PMC)
- Aceitação vs supressão em amostras clínicas (Campbell-Sills et al., 2006). (ScienceDirect)
Leituras complementares (links confiáveis)
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9779048/
https://www.psicothema.com/pdf/4090.pdf
https://grupoact.com.ar/wp-content/uploads/2020/06/2007-Experiential-avoidance-as-a-functional-dimensional-approach-to-psychopathology-an-empirical-review.-Chawla-Ostafin.pdf
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S221214472200028X
https://www.elaborer.org/psy1045d/cours/Gross%281998%29.pdf
https://www.johnnietfeld.com/uploads/2/2/6/0/22606800/gross_2015.pdf
https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/01461672992511010
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2764381/
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0005796705002068
