A romantização do sofrimento emocional nas redes

Indagação provocante: e se parte do seu sofrimento não estiver “dentro de você”… e sim no jeito como a internet transformou dor em estética, crise em identidade e vulnerabilidade em conteúdo?

Resposta direta: falar de saúde mental nas redes pode ser um passo importante de conscientização e apoio — mas existe um risco real quando o sofrimento é glamourizado (“tristeza bonita”, “ansiedade fofa”, “colapso como personalidade”) ou quando conteúdos sobre autoagressão/suicídio são exibidos de forma inadequada. Revisões científicas apontam que redes sociais podem ter efeitos benéficos e prejudiciais ao discutir/ver conteúdos de autoagressão, e que a exposição a certos conteúdos pode aumentar risco em pessoas vulneráveis, enquanto abordagens responsáveis podem ter efeito protetor. (PMC)

Caution Action: este texto é informativo e não substitui psicoterapia/avaliação médica. Se você estiver em risco imediato, procure ajuda agora (Brasil: CVV 188; emergência 192).


A história real por trás do “eu me identifiquei… e isso virou um buraco”

Exemplo concreto:

Fulano(a) está numa fase ruim. Abre o celular “só pra distrair”.
O algoritmo entrega um vídeo com estética bonita, música lenta e a frase:

“Eu sou meu transtorno.”

Fulano(a) chora. Se identifica. Sente alívio: “alguém me entende”.

Aí vem o segundo vídeo. E o terceiro. E o décimo.

Em poucos dias, o feed vira um espelho que só reflete uma coisa: dor.

Fulano(a) começa a falar de si com as mesmas frases.
Começa a se descrever pelos sintomas.
Começa a achar que melhorar seria… perder a própria identidade.

E é aqui que mora o risco invisível: a rede não só mostra sofrimento — às vezes ela ensina um jeito de ser sofrimento.


1) Quando “consciência” vira “glamourização”

Conscientizar é:

  • nomear com honestidade,
  • incentivar busca de ajuda,
  • reduzir estigma,
  • mostrar caminhos e recursos.

Glamourizar é:

  • transformar dor em estética desejável,
  • reforçar rótulos como identidade fixa,
  • sugerir que piorar é “mais autêntico”,
  • confundir intensidade com profundidade.

Um artigo recente em base biomédica discute preocupações sobre a glorificação/romantização de doença mental nas redes e seus efeitos, incluindo autodiagnóstico e distorções sobre o que é transtorno mental. (PMC)


2) O que a ciência sugere sobre conteúdos de autoagressão nas redes

Aqui é preciso ser cuidadoso(a) e direto(a):

  • Há evidências de que certas exposições podem ser nocivas para pessoas vulneráveis (por exemplo, aumentar urgências/impulsos), e ao mesmo tempo as redes podem oferecer apoio e espaços de pertencimento. (PMC)
  • Estudos e revisões discutem efeitos de contágio (Werther effect) e também efeitos protetores (Papageno effect) dependendo de como a história é retratada: romantização e detalhes inadequados pioram; foco em superação, busca de ajuda e alternativas pode proteger. (PubMed)

Isso não significa “a internet causa tudo”.
Significa: forma e repetição importam — especialmente para quem está sensível.


3) Por que “romantizar” gruda tão fácil no cérebro?

Porque ela faz três coisas ao mesmo tempo:

  1. Dá pertencimento: “tem gente igual a mim”.
  2. Dá explicação rápida: “eu sou assim”.
  3. Dá narrativa pronta: “minha dor me define”.

Isso alivia no curto prazo.
Mas pode empobrecer no longo prazo, porque uma pessoa não é um rótulo — é um sistema vivo, com história, contexto, corpo, vínculos e possibilidade de mudança.


4) Três sinais de que um conteúdo “sobre saúde mental” está te fazendo pior

Sem moralismo — só critério:

Sinal A — Você sai mais fechado(a) do que entrou

Você entra buscando acolhimento e sai com mais desesperança.

Sinal B — Sua identidade vira seu sintoma

Você começa a se apresentar pela dor, como se melhorar fosse trair quem você é.

Sinal C — Você consome em “maratona”

Como se o feed fosse a única forma de sentir algo… ou de não sentir.

Se isso acontece, não é culpa sua.
É um ambiente desenhado para retenção — não para recuperação.


5) Como se proteger sem virar “anti-rede”

Você não precisa sumir. Você precisa recuperar direção.

1) Troque estética por orientação

Prefira conteúdos que:

  • incentivem cuidado real,
  • indiquem recursos,
  • reconheçam complexidade,
  • evitem glamour e “frases absolutas”.

2) Higienize o algoritmo

  • silencie/oculte temas que te puxam para o buraco,
  • pare de “maratonar” dor,
  • siga perfis que falem de caminhos, não só de colapso.

3) Use a régua “saio melhor ou pior?”

Se a resposta for “pior” por uma semana, você já tem o dado.


6) Um ponto delicado: falar de suicídio e autoagressão exige responsabilidade

Organizações e pesquisadores chamam atenção para como o tema é retratado. Diretrizes da OMS para mídia existem justamente porque certas abordagens podem aumentar risco (efeito Werther) e abordagens cuidadosas podem reduzir risco (efeito Papageno). (PubMed)

Aqui, o princípio é simples:

  • não romantizar,
  • não detalhar,
  • não transformar dor em “heroísmo”,
  • e sempre apontar para ajuda e alternativas.

Fechamento mais incisivo

A romantização do sofrimento emocional é perigosa porque ela não te agride de frente.
Ela te abraça — e te mantém preso(a).

Ela te dá uma identidade para você não ter que encarar o vazio…
mas cobra um preço alto: a crença de que melhorar é perder a si mesmo(a).

Só que melhorar não é virar outra pessoa.
É voltar a caber em você com mais verdade, mais recursos e mais futuro.

E nenhum algoritmo deveria ter o direito de transformar sua dor em residência permanente.


Aviso importante

Conteúdo informativo. Se você estiver em risco imediato ou com pensamentos de autoagressão, procure ajuda agora: CVV 188 (Brasil) e emergência 192.


Referências (base científica e institucional)

  • Revisão: uso de redes sociais para discutir/ver autoagressão pode ter efeitos benéficos e prejudiciais. (PMC)
  • Revisões sobre contágio (Werther) e efeito protetor (Papageno) relacionados a conteúdo suicida — inclusive em redes sociais. (PubMed)
  • Discussão sobre recomendações da OMS para cobertura de suicídio e por que isso importa. (PubMed)
  • Artigos recentes discutindo glorificação/romantização de doença mental e implicações. (PMC)
  • Revisão: influência da internet em autoagressão/suicídio em jovens (PLOS ONE). (PLOS)

Leituras complementares (links confiáveis)

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4871432/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11032084/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12396996/
https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0181722
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38848950/
https://www.bmj.com/content/368/bmj.m575
https://www.mdpi.com/1660-4601/18/5/2396
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29064462/

Próximo tema (Post 10): “O conforto de mudar de opinião.”

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