Como apoiar alguém que você ama quando a saúde mental dele(a) não vai bem
Indagação provocante: e se ajudar alguém que você ama não fosse “dizer as frases certas” — e sim ser um lugar seguro quando a mente dele(a) vira um lugar perigoso?
Resposta direta: apoiar alguém quando a saúde mental não vai bem é, principalmente, combinar presença + escuta sem julgamento + ajuda prática, sem tentar “consertar” a pessoa na marra. Funciona melhor quando você valida o que ela sente (“eu acredito em você”), faz perguntas simples (“o que te ajudaria hoje?”), oferece passos pequenos (acompanhar em consulta, organizar rotina básica, reduzir isolamento) e respeita limites. Ao mesmo tempo, você precisa observar sinais de risco (ideação suicida, autoagressão, uso pesado de substâncias, incapacidade de funcionar) e, nesses casos, priorizar ajuda profissional e rede de apoio — porque amor ajuda muito, mas não substitui cuidado clínico quando a situação é grave.
Talvez você esteja vivendo algo assim:
- você percebe que aquela pessoa querida mudou — mais calada, mais irritada ou simplesmente “apagada”;
- sente que “tem algo errado”, mas não sabe como puxar conversa sem invadir;
- tem medo de falar e piorar, medo de insistir e ser chato(a), medo de se omitir e se arrepender depois.
Por fora, parece só mais um dia.
Por dentro, você está o tempo todo se perguntando:
“Como eu posso ajudar sem passar por cima, sem virar terapeuta e sem me perder no processo?”
Este texto é pra você, que ama alguém em sofrimento e não quer ficar só olhando de longe.
Vamos falar sobre:
- como perceber sinais que merecem atenção,
- como abrir uma conversa difícil com respeito,
- o que fazer (e o que evitar) ao ouvir,
- como ser apoio sem virar salvador,
- e quando é hora de incentivar — ou até ajudar — a buscar ajuda profissional.
1. O que você está vendo não é “frescura”: sinais que merecem cuidado
Cada pessoa é única, mas instituições como Mental Health Foundation, NAMI e NHS listam alguns sinais comuns de que a saúde mental pode estar em sofrimento:
- mudanças marcantes de humor (muito mais irritabilidade, tristeza, apatia);
- isolamento repentino (parar de responder, sumir de encontros, se trancar no quarto);
- alterações de sono (insônia, pesadelos, dormir demais) e de apetite;
- queda grande de energia, falta de interesse pelas coisas de antes;
- fala recorrente de culpa, inutilidade, fracasso;
- uso maior de álcool ou drogas pra “aguentar o dia”;
- frases do tipo “tanto faz”, “queria sumir”, “acho que ninguém sentiria minha falta”.
Um ponto importante:
Você não precisa ter certeza de um diagnóstico
pra levar esses sinais a sério.
Perceber que “algo está diferente” e se aproximar com cuidado já é muita coisa.
2. Como começar a conversa (sem rodeios cruéis nem sermão)
Muita gente trava na primeira frase.
Guias de organizações como NHS, Beyond Blue e Mental Health Foundation sugerem alguns princípios:
- escolha um momento com um mínimo de privacidade e tempo;
- comece pelo que você observa, não pelo que você acha que o outro “é”;
- fale em tom de curiosidade, não de acusação.
Algumas aberturas possíveis:
- “Tenho sentido você mais quieto(a) e preocupado(a) nos últimos dias. Queria saber como você está de verdade.”
- “Percebi que você anda se afastando de tudo. Fiquei com a sensação de que não tá fácil. Se você quiser falar sobre isso, eu tô aqui.”
- “Eu posso estar errado(a), mas tenho me preocupado com você. Como tem sido os seus dias por dentro?”
O foco é:
abrir uma porta, não empurrar a pessoa lá pra dentro.
Se a pessoa disser “não quero falar”, você pode responder algo como:
- “Tá tudo bem, eu respeito. Só não queria deixar de te dizer que eu me importo e que, se mudar de ideia, eu tô por perto.”
3. O poder de ouvir de verdade (e o perigo das frases que fecham a conversa)
Sites como Mind, NAMI e HSE batem na mesma tecla: ouvir é mais importante do que saber o que dizer.
Coisas que ajudam:
- ouvir mais do que falar;
- validar o que a pessoa sente, mesmo que você não entenda totalmente;
- fazer perguntas abertas, do tipo:
- “Como tem sido acordar de manhã pra você?”
- “O que tem sido mais pesado ultimamente?”
- “Tem alguma coisa que poderia deixar hoje um pouco menos difícil?”
Coisas que quase sempre atrapalham:
- “Você tá exagerando.”
- “Tem gente em situação muito pior.”
- “É só ter fé / força de vontade.”
- “Mas você tem tudo, não faz sentido estar assim.”
Essas frases, ainda que bem-intencionadas, passam a mensagem:
“O que você sente está errado.
Melhor guardar pra você da próxima vez.”
Você não precisa concordar com cada pensamento da pessoa.
Mas pode reconhecer o peso que ela sente, com coisas como:
- “Eu não sei exatamente como é pra você, mas dá pra ver que tá muito difícil.”
- “Obrigado por confiar em mim a ponto de contar isso.”
- “Faz sentido você estar cansado(a) assim, considerando tudo que tem vivido.”
4. Você não é terapeuta: seu papel é ser ponte, não solução completa
Organizações como Mental Health Foundation, Rethink e NAMI reforçam um ponto importante: familiares e amigos não substituem tratamento, mas podem ser pontes fundamentais.
Na prática, seu papel pode incluir:
- acolher – estar presente, ouvir, não minimizar;
- encorajar – lembrar que ajuda profissional existe e é um direito;
- facilitar – ajudar com coisas práticas, se a pessoa quiser (agendar consulta, olhar plano de saúde, ir junto na primeira vez).
Você NÃO é responsável por:
- “salvar” a pessoa sozinho(a);
- ter resposta pra tudo;
- estar disponível 24h por dia.
Na dúvida, uma frase honesta pode ser:
“Eu te amo e quero muito te apoiar.
Tem coisas que fogem do que eu dou conta sozinho(a),
mas a gente pode procurar ajuda juntos.”
5. Quando e como incentivar a buscar ajuda profissional
Muitas pessoas em sofrimento:
- não sabem por onde começar,
- acham que “não é grave o suficiente”,
- têm medo de ser julgadas ou medicadas à força.
Guias de Mind, NIMH e NHS sugerem alguns jeitos de ajudar alguém a buscar ajuda:
- oferecer-se pra:
- pesquisar psicólogos/psiquiatras com a pessoa,
- ajudar a listar perguntas para a primeira consulta,
- organizar exames/receitas/papéis em uma pasta;
- propor acompanhar até o local (ou ficar na sala de espera, se for presencial);
- lembrar que ajuda pode vir por vários caminhos:
- terapia individual,
- grupos de apoio,
- serviços públicos (como CAPS, UBS, ambulatórios),
- linhas de apoio emocional.
Você pode dizer, por exemplo:
- “Você toparia a gente pesquisar juntos algumas opções de ajuda, só pra ver o que existe?”
- “Se você quiser marcar uma consulta, eu posso te ajudar a organizar as coisas e até ir com você.”
Importante: a decisão é da pessoa, exceto em situações de risco grave e iminente (quando pode ser necessário acionar serviços de saúde mesmo sem consenso total).
6. E se a pessoa estiver em crise ou falando de morte?
Se a pessoa falar de:
- vontade de morrer,
- plano de se machucar,
- frases como “não aguento mais, seria melhor se eu não estivesse aqui”,
isso não é “chamar atenção”.
É sinal de sofrimento intenso.
Aqui vale lembrar tanto o que a gente falou no texto de primeiros socorros emocionais, quanto o que organizações de prevenção orientam:
- leve a fala a sério, sem dramatizar nem banalizar;
- pergunte com calma:
- “Você tem pensado em alguma forma específica de se machucar?”
- “Você chegou a fazer algo nesse sentido?”
- se houver risco imediato:
- não deixe a pessoa sozinha;
- se possível, afaste meios de autoagressão;
- procure ajuda de emergência (serviço de saúde, SAMU, UPA, pronto atendimento, CAPS de crise, conforme a sua cidade);
- ofereça apoio para contato com serviços como o CVV (telefone 188, gratuito, 24h, cvv.org.br).
Falar de suicídio não “coloca ideia” na cabeça de ninguém;
pelo contrário, pode abrir espaço para a pessoa dividir o peso que já está carregando.
7. E você, quem cuida?
Cuidar de alguém em sofrimento abala.
Textos de NAMI, Rethink e outras organizações para familiares lembram que quem apoia também precisa de:
- espaço pra falar sobre o que sente;
- informação de qualidade;
- limites (horários, capacidades, temas);
- às vezes, apoio profissional próprio.
Algumas perguntas sinceras pra você mesmo(a):
- “Eu estou tentando controlar coisas que não dependem de mim?”
- “Estou esquecendo de comer, dormir ou cuidar minimamente de mim pra cuidar do outro?”
- “Eu tenho com quem dividir esse peso ou estou carregando tudo sozinho(a)?”
Você pode amar profundamente uma pessoa sem conseguir resolver tudo por ela.
Reconhecer isso não é abandono — é lucidez.
Em vez de “não sei o que dizer, então fico quieto(a)”, talvez:
“Eu posso não ter todas as respostas,
mas posso oferecer presença, escuta e ajuda pra encontrar quem tenha.”
Apoiar alguém com sofrimento emocional não exige:
- frases perfeitas,
- diagnósticos de bolso,
- nem virar especialista da noite pro dia.
Exige:
- respeito,
- vontade de aprender,
- coragem de ficar na conversa sem minimizar,
- e humildade pra chamar ajuda quando as coisas ultrapassam o que você consegue oferecer.
Este texto é informativo.
Não substitui avaliação médica, psicológica ou psiquiátrica.
Se alguém que você ama está em risco imediato de se machucar ou machucar alguém, procure ajuda presencial urgente (serviços de saúde de emergência) e, se possível, acione outros adultos de confiança.
Referências
- Mental Health Foundation. How to support someone with a mental health problem. (Sugestões práticas para ouvir sem julgar, oferecer apoio e encorajar ajuda profissional.)
- NHS – Every Mind Matters. Helping others with mental health problems. (Dicas de como apoiar na rotina, conversar e incentivar a buscar ajuda.)
- Mind (UK). Helping someone else seek help. (Orientações sobre como acompanhar a pessoa na busca por tratamento e organizar consultas e perguntas.)
- NAMI – National Alliance on Mental Illness. Tips for how to help a person with mental illness; Family Members and Caregivers. (Conselhos para familiares e amigos, incluindo comunicação, limites e apoio em crises.)
- Mental Health First Aid. Using the 5-Step MHFA Action Plan: How ALGEE Helps in Mental Health and Substance Use Challenges; Exploring the MHFA Action Plan. (Descrevem o plano ALGEE: abordar, ouvir sem julgamento, oferecer apoio e informação, encorajar ajuda profissional e outros apoios.)
- HSE / Beyond Blue / Mental Health Foundation NZ. What to say to someone going through a tough time; How to talk to someone about their mental health; A guide to starting a conversation about mental health. (Dão exemplos concretos de frases que abrem conversa e frases que fecham.)
Para ler mais sobre como apoiar alguém com a saúde mental abalada
Se você quer se aprofundar em maneiras de apoiar uma pessoa querida em sofrimento emocional, estes materiais podem ajudar:
- Mental Health Foundation (UK) – guia prático sobre como apoiar alguém com um problema de saúde mental, com exemplos de frases, atitudes e limites saudáveis: How to support someone with a mental health problem .
- Mind (UK) – página dedicada a quem quer ajudar outra pessoa, com orientações sobre ouvir, incentivar a buscar ajuda e cuidar de si enquanto cuida do outro: Helping someone else e um guia específico sobre como ajudar alguém a buscar ajuda: Helping someone else seek help .
- NAMI – National Alliance on Mental Illness – dicas para apoiar alguém que vive com um transtorno mental, pensadas especialmente para familiares, amigos e comunidade: Tips For How to Help a Person with Mental Illness .
- NHS – Every Mind Matters (Reino Unido) – guia sobre como apoiar outra pessoa que esteja enfrentando dificuldades de saúde mental: Helping others with mental health problems .
- Samaritans (UK) – orientações sobre como agir se você está preocupado(a) com alguém e como oferecer apoio em momentos de crise: How to support someone you’re worried about .
- Mental Health Foundation New Zealand – página voltada a quem está apoiando alguém com sofrimento mental, com foco em comunicação e limites: Supporting someone with their mental health .
