É possível mudar o temperamento? Sim — mas não do jeito que a gente imagina
Indagação provocante: e se o seu “jeito de ser” não fosse uma sentença… mas também não fosse uma massinha que você molda em uma semana?
Resposta direta: temperamento é, em geral, o seu “padrão constitucional” de reação — a forma como você tende a responder emocionalmente e como regula atenção/impulsos. A APA descreve temperamento como um padrão constitucional de reações. (Dicionário APA de Psicologia) E, em modelos influentes (como Rothbart), ele envolve diferenças em reatividade e autorregulação. (PMC)
Então, dá pra mudar? Sim, mas com nuance: o temperamento costuma ter estabilidade moderada (você não vira outra pessoa do dia pra noite), ao mesmo tempo em que há mudanças reais ao longo do desenvolvimento e, principalmente, na forma como você regula e expressa suas tendências. (PMC)
Atenção: este texto é informativo e não substitui psicoterapia/avaliação médica. Se seu “temperamento” está vindo com explosões, sofrimento intenso, ou prejuízo importante em relações/trabalho, buscar ajuda profissional pode acelerar muito o processo.
A história real por trás do “eu sou assim mesmo”
Uma pessoa se descreve assim:
- “eu sou estourado(a)”
- “eu sou ansioso(a)”
- “eu sou frio(a)”
- “eu sou impaciente”
E, ao mesmo tempo, ela se sente presa porque:
- até tenta mudar,
- mas na hora H… o automático aparece.
Então ela conclui: “não tem jeito”.
Só que a pergunta certa não é “dá pra virar outra pessoa?”
É: o que, exatamente, pode mudar — e por qual caminho?
1) Primeiro: diferencie “temperamento” de “comportamento”
Para dar conforto cognitivo, pensa assim:
- Temperamento = sua tendência-base (velocidade e intensidade de reação + facilidade de autorregulação). (PMC)
- Comportamento = o que você faz com essa tendência (responder, explodir, se calar, pedir pausa, sair de cena).
Em seguida, vem o ponto libertador:
você não precisa “mudar a tendência-base” para mudar a vida — você precisa mudar o manejo dela.
2) Depois: o que costuma ser mais estável (e por quê)
Alguns aspectos do temperamento são mais “duros” de mexer rapidamente, como:
- quão rápido você ativa estresse,
- quão forte você sente frustração,
- sua sensibilidade a estímulos.
A literatura descreve temperamento como precoce e com estabilidade moderada, com influência genética e ambiental ao longo do tempo. (PMC)
Ou seja: você não escolhe sua “primeira faísca”.
3) Agora vem a boa notícia: o que costuma mudar bastante é a sua autorregulação
Aqui entra o “ponto de alavanca”.
Modelos como o de Rothbart destacam não só reatividade, mas também autorregulação, incluindo atenção e o que chamam de effortful control (capacidade de frear impulso, mudar foco, escolher resposta). (PMC)
Então, mesmo que sua reatividade seja alta, dá para treinar:
- pausa antes da resposta,
- flexibilidade de atenção,
- linguagem de limite,
- recuperação após gatilho.
Em outras palavras: você pode não controlar o “sentir”, mas pode treinar o “agir”.
4) “Tá, mas isso é mudar temperamento ou só se segurar?”
Boa pergunta — e aqui vai a distinção que evita frustração.
- Se segurar = você explode por dentro e só “engole” por fora.
- Treinar regulação = você muda o circuito: percebe mais cedo, baixa ativação, escolhe resposta e, com repetição, isso fica mais automático.
Esse “ficar mais automático” é crucial: com o tempo, o que era Sistema 2 vira parte do seu novo padrão (seu jeito de funcionar).
Como “mudar o temperamento” na prática (sem virar uma pessoa ansiosa e controladora)
Abaixo estão 4 mudanças que realmente movem a agulha — com transições suaves e esforço mínimo.
1) Mude o timing: 10 segundos antes já é outra vida
Antes de discutir o conteúdo, faça uma pergunta:
“Eu já estou ativado(a) demais para conversar?”
Se sim, a ação não é “argumentar melhor”.
Em vez disso, é pausar.
Um script simples:
“Eu quero resolver. Eu preciso de 10 minutos pra baixar o tom e volto.”
2) Mude o ambiente: menos gatilho, menos “eu sou assim”
Em seguida, reduza o que te acende:
- notificações no silencioso,
- fome/sono (gatilhos clássicos),
- excesso de estímulo,
- conversas difíceis em horário ruim.
Isso não é fraqueza: é engenharia do temperamento.
3) Mude o foco da mente: do “por que sou assim?” para “como eu regulo isso?”
Aqui entra o pulo do gato:
- abstrato (piora): “por que eu sou assim?”
- concreto (melhora): “o que acontece no meu corpo 30s antes?” + “qual é o meu próximo passo?”
Essa mudança de modo (concreto, orientado a ação) é o que mais desarma looping mental.
4) Mude a prática: treine em doses pequenas, repetidas
Por fim, o que muda “jeito” não é insight — é repetição aplicada.
Você escolhe um treino por 14 dias:
- Treino de pausa: 3 respirações longas antes de responder
- Treino de pedido: “Eu preciso de X. Você pode Y?”
- Treino de reparo: “Falei mal. Vou tentar de novo.”
- Treino de saída: “Eu volto quando for respeitoso.”
Com o tempo, isso vira “você”.
Um cuidado honesto: personalidade e temperamento mudam, mas não viram mágica
Pesquisas sobre traços de personalidade mostram que há estabilidade e mudança ao longo da vida (não é pedra), mas também que existe consistência relativa (não é água). (Centro de Economia do Desenvolvimento Humanitário)
Logo, a meta realista não é “virar outra pessoa”.
A meta é:
mesmo temperamento, outra forma de conduzir.
Fechamento mais incisivo
Sim: é possível mudar o temperamento — principalmente no que ele tem de mais transformável: a autorregulação e os hábitos de resposta. (PMC)
Você não precisa “matar” seu jeito.
Você precisa amadurecer o seu jeito.
E isso costuma aparecer assim:
- você se ativa do mesmo jeito…
- mas volta mais rápido, se explica melhor, fere menos, se preserva mais.
Referências (base científica e institucional)
- Definição de temperamento (padrão constitucional de reações): APA Dictionary. (Dicionário APA de Psicologia)
- Temperamento como reatividade + autorregulação; desenvolvimento de autorregulação: Rothbart (2011, PMC). (PMC)
- Estabilidade moderada e associação com desenvolvimento/psicopatologia: Rettew (2005, PMC). (PMC)
- Estabilidade estrutural e rank-order de traços temperamentais em crianças: Dyson et al. (2015, PMC). (PMC)
- Traços mudam ao longo da vida (estabilidade e mudança): Bleidorn (2021) + revisão sobre mudança ao longo da vida. (SAGE Journals)
- Rank-order consistency (consistência relativa) em traços ao longo do tempo: Roberts & DelVecchio (2000). (Centro de Economia do Desenvolvimento Humanitário)
Leituras complementares (links confiáveis)
https://dictionary.apa.org/temperament
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3164871/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3319036/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4615267/
https://journals.sagepub.com/doi/10.5964/ps.6009
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5742083/
https://jenni.uchicago.edu/Spencer_Conference/Representative%20Papers/Roberts%20%26%20DelVecchio%2C%202000.pdf
Se quiser, eu escrevo a próxima no mesmo modelo: “Temperamento forte vs. desregulação: como saber se é ‘jeito’ ou se virou prejuízo (e o que fazer em cada caso).”
