Por que a IA erra com tanta confiança: overfitting, viés e o problema do “parece certo”

Indagação provocante: e se o maior perigo da IA não fosse ela errar — e sim errar do jeito mais convincente possível, com cara de certeza?

Resposta direta: muitos modelos de IA (especialmente redes neurais modernas) tendem a ficar mal calibrados: eles dão probabilidades/“confiança” que não correspondem à chance real de estarem certos. Isso já foi mostrado em trabalhos clássicos sobre calibração (modelos modernos podem ser “overconfident”). E a confiança vira ainda mais enganosa quando há mudança de distribuição (dataset shift) e o modelo encontra dados “fora do que viu” (OOD): ele pode continuar respondendo com alta confiança, mesmo sem base.

Atenção: este texto é informativo. Em decisões importantes (saúde, finanças, jurídico), IA deve ser usada com verificação e responsabilidade.


A história real por trás do “uau, respondeu rápido… então deve estar certo”

Determinada pessoa pergunta algo para uma IA.

A resposta vem:

  • bem escrita,
  • bem estruturada,
  • com tom de certeza.

Ela pensa: “Pronto. Resolvido.”

Dias depois, descobre que:

  • a IA misturou conceitos,
  • assumiu coisas que ninguém disse,
  • e “preencheu lacunas” como se fosse fato.

O erro não foi só errar.

Foi errar com performance de verdade.


1) A raiz do problema: “confiança” não é “acerto”

Em muitos modelos, a “confiança” é uma probabilidade aprendida para maximizar desempenho — mas isso não garante que ela represente a realidade.

O ponto central da literatura de calibração é justamente esse: probabilidades previstas deveriam refletir frequência real de acerto (ex.: quando o modelo diz 80%, ele deveria acertar ~80% das vezes). E isso frequentemente falha em redes modernas.


2) Overfitting (um jeito simples de entender)

Overfitting é quando o modelo aprende demais o “jeito” do conjunto de treino:

  • pega atalhos,
  • decora padrões,
  • gruda em correlações frágeis.

No mundo real, onde as coisas mudam um pouco, ele sofre.

E aí acontece uma coisa perigosa: ele continua confiante, porque ele não foi treinado para “admitir ignorância” — foi treinado para escolher.


3) Viés: o modelo aprende o mundo como o dado mostra (não como o mundo é)

IA aprende com dados. Se os dados carregam:

  • desigualdades,
  • amostras incompletas,
  • rótulos ruins,
  • distorções históricas,

o modelo internaliza isso.

E o viés pode virar “certeza”: ele aprende um atalho que funciona estatisticamente no treino e passa a agir como se fosse verdade universal.


4) Dataset shift e OOD: quando você muda o cenário e o modelo não sabe que mudou

Um dos motivos de IA errar com confiança é que ela pode estar vendo algo fora da distribuição (OOD) — dados diferentes dos que ela viu no treino.

Em termos simples: ela aprendeu a dirigir em uma cidade, e você colocou ela numa estrada de terra.
Só que ela continua dirigindo como se estivesse na cidade.

Há pesquisas e surveys inteiros sobre OOD detection justamente porque modelos podem fazer previsões muito confiantes em entradas fora do domínio. E trabalhos aplicados mostram o problema de dataset shift em contextos sensíveis, propondo estratégias de rejeição/triagem quando há OOD.


5) “Parece certo” porque a linguagem é boa (não porque o conteúdo é verdadeiro)

Modelos gerativos são ótimos em:

  • fluência,
  • coerência local,
  • tom convincente.

Isso cria uma ilusão cognitiva: nosso cérebro confunde qualidade de escrita com qualidade de evidência.

Por isso, o antídoto não é “duvidar de tudo”.
É checar do jeito certo.


6) Dá para “consertar” a confiança? (calibração)

Sim — pelo menos em parte.

Um achado prático muito citado é que temperature scaling pode melhorar calibração sem mudar a classe prevista (ele ajusta as probabilidades). Há também revisões mostrando padrões e limites da calibração em modelos modernos.

Tradução humana:

  • às vezes o modelo até acerta,
  • mas a “certeza” dele está inflada,
  • e dá para ajustar esse termômetro.

O método “3 checagens” para nunca ser enganado(a) por confiança

  1. Qual é a fonte? (isso é fato citado, ou é inferência do modelo?)
  2. Qual é o domínio? (isso está dentro do que o modelo “costuma saber” ou é OOD?)
  3. Qual é o custo do erro? (se errar aqui, dá ruim? então precisa validação externa)

Plano de 10 minutos (hoje) para usar IA sem cair no “parece certo”

  1. Pegue uma resposta que te convenceu.
  2. Marque 3 frases “factuais”.
  3. Para cada uma, ache 1 fonte primária (artigo, doc, manual, site institucional).
  4. Se não achar, rebaixe a resposta para: “hipótese plausível, não confirmada”.

Você não está “desconfiando”.
Você está saindo do encanto e voltando para o método.


Referências (base científica e institucional)

  • Redes neurais modernas podem ser mal calibradas; temperature scaling como técnica eficaz (Guo et al., 2017).
  • Revisões/discussões sobre calibração em modelos modernos (Minderer et al., 2021; Wang et al., 2021).
  • Tutorial sobre calibração e tendência à overconfidence em test set.
  • OOD detection e o problema de previsões confiantes fora do domínio (surveys e trabalhos recentes).
  • Dataset shift aplicado e estratégias de rejeição/triagem.

Leituras complementares (links confiáveis)

https://arxiv.org/abs/1706.04599
https://proceedings.mlr.press/v70/guo17a/guo17a.pdf
https://openreview.net/pdf?id=QRBvLayFXI
https://proceedings.neurips.cc/paper/2021/file/61f3a6dbc9120ea78ef75544826c814e-Paper.pdf
https://dl.acm.org/doi/10.1145/3760390
https://openreview.net/pdf?id=nYjSkOy8ij
https://www.nature.com/articles/s41598-025-01811-8
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12121363/

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