A necessidade de validação constante

Indagação provocante: e se você não estivesse “precisando de mais amor”… e sim ficando dependente do sinal de que não vai ser rejeitado(a)?

Resposta direta: buscar validação é humano — faz parte do nosso desejo de pertencimento (a ideia de que vínculos estáveis e interações sociais positivas são uma motivação fundamental). (Persweb)
O problema começa quando a validação vira combustível principal do seu valor próprio: você só se sente “ok” quando recebe aprovação, resposta, curtida, elogio, confirmação. Isso se conecta a pesquisas sobre autoestima contingente (valor próprio dependente da aprovação/feedback) e “self-validation goals”, que podem gerar custos emocionais e relacionais. (ScienceDirect)

Caution Action: este texto é informativo e não substitui psicoterapia/avaliação médica.


A história real por trás do “só me responde”

Exemplo concreto (bem cotidiano):

Você manda uma mensagem simples:
“Podemos conversar depois?”

A pessoa visualiza. Não responde.

E, em minutos, seu cérebro abre um tribunal:

  • “falei algo errado”
  • “não gostam de mim”
  • “vou perder essa pessoa”
  • “eu sou demais / eu sou pouco”

Aí você faz o que parece aliviar:

  • manda outra mensagem “de boa”,
  • posta algo esperando reação,
  • checa se a pessoa está online,
  • tenta arrancar um sinal.

Isso é reassurance-seeking: buscar reafirmação/certeza para reduzir ansiedade e insegurança. (PMC)

E funciona… por 10 minutos.
Até o próximo silêncio.


1) O cérebro ama pertencimento — e odeia incerteza social

A necessidade de pertencer não é frescura: é uma motivação robusta descrita na literatura clássica e amplamente citada. (Persweb)
Quando o vínculo parece ameaçado, o corpo reage como se fosse risco real.

Daí nasce a urgência:
“me dá um sinal.”

O sinal não é só carinho.
É regulação do sistema de ameaça.


2) Quando aprovação vira “fonte de valor”, o eu fica instável

Há pesquisas sobre contingência de valor próprio na aprovação: quando sua autoestima depende do quanto você se sente aceito(a), a atenção fica presa em sinais sociais (aprovação/rejeição), e isso pode amplificar oscilações emocionais. (ScienceDirect)

Em redes sociais isso pode ficar ainda mais intenso: há trabalhos conceituando self-esteem contingente à mídia social, com ênfase em buscar aprovação, evitar desaprovação e sentir menor controle sobre reações alheias. (Teoria da Autodeterminação)

Tradução simples:
você não está só “querendo ser visto(a)”.
você está usando o olhar do outro como medidor de dignidade.


3) Likes, notificações e recompensa: por que isso vicia tão fácil

A validação digital não é neutra: “likes” funcionam como feedback social e têm relação com circuitos de recompensa e aprendizagem por reforço.

  • Um estudo em Nature Communications (Sherman et al.) investigou correlatos neurais do “Like” e discute como esse feedback compartilha características de recompensas sociais e monetárias. (PMC)
  • Estudos com adolescentes mostraram ativação de regiões de recompensa (como o núcleo accumbens) ao ver fotos com muitos likes. (UCLA)

Isso não significa “rede social = vilã”.
Significa: o sistema é desenhado para transformar atenção em hábito.


4) Sinais de que validação virou dependência

Você não precisa ter todos. Basta reconhecer o padrão:

  • checagem compulsiva (mensagem, curtida, visualização) para “voltar ao normal”
  • postar para aliviar, não para expressar
  • ansiedade de silêncio (quando ninguém reage, você se sente invisível)
  • autoimagem em bolsa de valores: sobe e desce conforme feedback
  • relacionamentos com “teste”: você provoca sinais para confirmar amor/segurança

Em muitos casos, isso se mistura com metas de auto-validação que podem acabar afastando pessoas — um tema discutido em trabalhos sobre contingências de valor próprio e “self-validation goals”. (UB WordPress)


5) O método “VALIDAÇÃO INTERNA SEM VIRAR FRIO(A)” (3 passos práticos)

Não é para virar “independente de todo mundo”.
É para parar de virar refém.

1) Atraso inteligente (90 segundos)

Quando vier a urgência de checar/mandar mais:
“Eu vou esperar 90 segundos antes de agir.”

Isso quebra a ligação automática “ansiedade → validação → alívio”.

2) Nomeie a necessidade real

Pergunte:
“O que eu preciso aqui: conexão ou certeza?”

  • Se é conexão: busque conversa real, não migalhas de sinal.
  • Se é certeza: aceite que certeza total não existe — e que você consegue tolerar um pouco de dúvida.

3) Uma frase de autorregulação

Diga (mentalmente):
“Silêncio não é rejeição automática.”
“Eu consigo aguentar desconforto sem me humilhar.”

Isso não apaga o medo.
Mas devolve um pouco de comando.


6) Um ajuste que muda tudo: peça o que você precisa, sem mendigar

Em vez de pedir sinal em loop (“tá tudo bem?” “você tá bravo?”), faça pedido adulto:

  • “Eu fico inseguro(a) quando some. Você pode me dizer quando vai ficar offline?”
  • “Se você não puder conversar hoje, tudo bem. Só me avisa para eu não ficar imaginando.”

Isso reduz o ciclo de reassurance-seeking e aumenta clareza relacional. (E sim: nem todo mundo vai atender. E isso também é informação.)


Fechamento mais incisivo

Validação é gostosa porque dá paz rápida.
Mas validação constante cobra um preço: você começa a viver como quem precisa ser aprovado(a) para existir.

O antídoto não é se fechar.
É construir uma base interna suficiente para que:

elogio seja bônus, não oxigênio.
curtida seja detalhe, não diagnóstico.
resposta seja vínculo, não prova de valor.

Porque quando você para de implorar por sinais, sobra energia para o que realmente cura: presença, escolhas e relações que não exigem performance.


Aviso importante

Conteúdo informativo. Se a necessidade de validação estiver ligada a sofrimento intenso, crises de ansiedade, dependência emocional, relações abusivas ou prejuízo importante no funcionamento, buscar ajuda profissional faz sentido.


Referências (base científica e institucional)

  • Baumeister & Leary (1995) — Need to Belong (pertencimento como motivação humana fundamental). (Persweb)
  • Lemay Jr. et al. (2006) — contingência de valor próprio em aprovação social e relação com autoestima (longitudinal). (ScienceDirect)
  • Park, Crocker & Vohs (2006) — contingências de valor próprio e self-validation goals (impactos interpessoais). (UB WordPress)
  • Martinez et al. (2024) — social media contingent self-esteem: busca de aprovação/evitar desaprovação. (Teoria da Autodeterminação)
  • Sherman et al. (2018, PMC) — “Like” como feedback com características de recompensa social/monetária. (PMC)
  • UCLA / APS (2016) — likes e ativação de circuitos de recompensa em adolescentes. (UCLA)
  • APA Dictionary — “reassurance” (conceito ligado a suporte/segurança emocional; útil para entender busca de reafirmação). (Dicionário APA de Psicologia)

Leituras complementares (links confiáveis)

https://persweb.wabash.edu/facstaff/hortonr/articles%20for%20class/baumeister%20and%20leary.pdf
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0092656605000024
https://ubwp.buffalo.edu/selfandmotivationlab/wp-content/uploads/sites/91/2018/05/Park-Crocker-Vohs-2006.pdf
https://selfdeterminationtheory.org/wp-content/uploads/2024/06/2024_MartinezBrowneKnee_ContingentSelfEsteem.pdf
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6121147/
https://newsroom.ucla.edu/releases/the-teenage-brain-on-social-media
Social Media ‘Likes’ Impact Teens’ Brains and Behavior
https://dictionary.apa.org/reassurance

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