Estamos nos tornando versões editadas de nós mesmos?

Indagação provocante: e se a sua ansiedade não vier do que está acontecendo… mas do trabalho silencioso de manter uma versão “apresentável” de você o tempo todo?

Resposta direta: em algum nível, todo mundo faz autoapresentação — escolhe o que mostrar, o que esconder, o que enfatizar. Isso é parte da vida social e aparece desde Goffman (a vida como “palco”, com gestão de impressão). (Monoskop)
O risco começa quando a edição deixa de ser contexto e vira identidade: você não está só “postando melhor”, você está tentando ser o que é mais aceitável, mais admirável, mais desejável — e isso pode corroer autenticidade e bem-estar. (Nature)

Caution Action: este texto é informativo e não substitui psicoterapia/avaliação médica.


A história real por trás do “eu virei meu próprio marketing”

Fulano(a) não queria mentir.
Só queria evitar julgamento.

Começou assim:

  • escolhe a melhor foto,
  • escreve a legenda certa,
  • mostra a parte “organizada” da rotina,
  • apaga o que parece fraco.

Até que, um dia, percebe uma coisa estranha:

a vida real começou a parecer inferior ao perfil.

E aí surge um tipo de cansaço que não melhora com sono:
o cansaço de sustentar personagem.


1) Edição não é o problema. O problema é quando a edição vira sobrevivência.

A internet amplificou uma habilidade humana antiga: impression management (gestão de impressão). (Monoskop)
Você sempre selecionou o que mostrar (no trabalho, num encontro, com a família). Só que agora existe:

  • registro permanente,
  • audiência invisível,
  • métrica de aprovação,
  • e comparação infinita.

A edição deixa de ser “uma escolha” e vira “um dever”.


2) Quando a versão online vira “ideal” e a vida vira “atual insuficiente”

Aqui entra uma lente poderosa: Self-Discrepancy Theory (Higgins, 1987).
A teoria descreve o desconforto que surge quando seu “eu atual” entra em conflito com guias internos do “eu ideal” (quem você gostaria de ser) e do “eu deveria” (quem você sente que precisa ser). (ResearchGate)

Tradução prática:

  • você posta o “eu ideal”
  • e depois volta para o “eu atual”
  • e a distância dói.

Não porque você é fraco(a).
Mas porque você está comparando sua vida com a sua própria propaganda.


3) Exemplo concreto (o tipo de cena que quase ninguém admite)

Você tira 18 fotos.
Escolhe 1.

Aplica ajuste.
Confere o ângulo.
Escreve uma legenda com um tom “leve e inteligente”.

Posta.

Nos 20 minutos seguintes:

  • abre o app de novo,
  • olha as curtidas,
  • compara com o desempenho anterior,
  • sente um aperto se “não foi bem”.

Repare: você não está só compartilhando.
Você está medindo valor.

E isso, aos poucos, ensina seu cérebro a associar “ser visto” com “ser avaliado”.


4) Comparação social: a fábrica de versões melhoradas

A comparação social sempre existiu, mas as redes turbinam o “para cima” (você se compara com quem parece melhor). Uma meta-análise sobre exposição a comparação ascendente em redes sugere que “contrast” (sentir-se pior em comparação) é uma resposta dominante e está ligada a autoavaliações negativas. (Tandf Online)

Isso não significa que rede social “só faz mal”.
Significa: quando seu feed vira uma vitrine de vidas editadas, seu cérebro faz o que ele faz: compara.


5) Autenticidade online não é romantismo — é um fator de bem-estar

Existe evidência de que expressão autêntica nas redes pode se associar a maior bem-estar. Um estudo em Nature Communications encontrou associação entre autoexpressão autêntica em redes sociais e bem-estar. (Nature)
E revisões sistemáticas apontam que diferentes estilos de autoapresentação podem apoiar ou prejudicar bem-estar, dependendo de como e por quê você se apresenta (e não só “quanto você usa”). (ScienceDirect)

Tradução humana:
não é “poste tudo” vs “poste nada”.
É: você está se expressando… ou se vendendo por necessidade?


6) Sinais de que você está virando uma versão editada demais

Sinal A — Você sente que precisa “merecer aparecer”

Você só posta quando está bem, bonito(a), produtivo(a), “dando certo”.

Sinal B — Você vive em curadoria emocional

Você não mostra vulnerabilidade nem para si. Você mascara.

Sinal C — Você confunde privacidade com falsidade

Você acha que ser autêntico(a) é expor tudo. Aí você recua e vira 100% personagem.

Sinal D — A vida real parece sem brilho

Porque vida real tem tédio, repetição e imperfeição. E isso é normal.


7) O antídoto: “edição consciente” (usar a rede sem perder você)

Um método simples e prático:

1) Pergunta de intenção

“Eu estou postando para me expressar ou para ser aceito(a)?”
(às vezes é um pouco dos dois — mas note o peso)

2) Regra do custo interno

Se para postar você precisa ficar ansioso(a), se comparar e se julgar por horas, o custo está alto demais.

3) Um ponto de verdade por post (se você quiser postar)

Não é “expor trauma”. É inserir humanidade:

  • um detalhe real do processo,
  • uma dúvida honesta,
  • uma limitação humana.

4) Proteja o “eu atual”

Se você só alimenta o “eu ideal”, o “eu atual” vira inimigo.
E maturidade é o contrário: diminuir a guerra interna.


Fechamento mais incisivo

O mundo já pede que você seja eficiente, bonito(a), rápido(a), convincente.

Se você transformar seu eu em produto, o preço é alto:
você ganha aprovação… e perde presença.

Porque a versão editada não sente.
Não descansa.
Não erra.
Não tem dias comuns.

Mas você tem.

E talvez o ato mais radical hoje não seja “ser perfeito(a)”.
Seja ser inteiro(a) — mesmo que isso não viralize.


Aviso importante

Conteúdo informativo. Se a comparação, a necessidade de validação ou a autoimagem estiverem gerando sofrimento intenso, isolamento ou prejuízo importante, buscar ajuda profissional faz sentido.


Referências (base científica e institucional)

  • Goffman, E. (1959) — vida social como “apresentação”, impression management. (Monoskop)
  • Higgins, E. T. (1987) — Self-Discrepancy Theory (eu atual vs ideal/ought e desconforto emocional). (ResearchGate)
  • de Vaate et al. (2020) — revisão sistemática: autoapresentação online e bem-estar/imagem corporal. (ScienceDirect)
  • Bailey et al. (2020, Nature Communications) — autoexpressão autêntica em redes e bem-estar. (Nature)
  • McComb et al. (2023) — meta-análise: comparação social ascendente e efeitos negativos em autoavaliação. (Tandf Online)
  • Avci et al. (2024, PMC) — revisão: uso de redes e desenvolvimento de identidade (inclui self-concept clarity/identity distress). (PMC)

Leituras complementares (links confiáveis)

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12084248/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4023076/
https://www.nature.com/articles/s41467-020-18539-w
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0736585319308081
https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/15213269.2023.2180647
https://monoskop.org/images/1/19/Goffman_Erving_The_Presentation_of_Self_in_Everyday_Life.pdf
Impression Management: Erving Goffman Theory
https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2022.883736/full

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